A Índia caminha para um dos testes energéticos mais difíceis dos últimos anos. Um verão mais quente do que o normal está se aproximando justamente no momento em que a guerra no Oriente Médio desorganiza os fluxos globais de combustíveis e obriga Nova Délhi a recorrer a todas as ferramentas disponíveis para atender ao pico de demanda por eletricidade. Isso inclui acelerar a geração de energia a carvão, conectar mais projetos eólicos à rede e apressar a conclusão de projetos de armazenamento de energia por baterias.
Mas, com o carvão respondendo por até 75% da eletricidade do país, a forma como a Índia administrar esse recurso será decisiva para determinar se apagões serão a exceção ou a regra nos próximos meses. Depois da pressão sobre o gás de cozinha, a escassez de energia elétrica pode se tornar o próximo grande fator de disrupção na vida de milhões de indianos. Esse é o foco principal desta semana.
Além disso, a proposta do governo indiano de pré-instalar o aplicativo nacional de identidade Aadhaar em smartphones vem enfrentando resistência. Mais abaixo, há mais detalhes sobre esse assunto.
Esta semana na Ásia
- A inflação subjacente do Japão desacelera e fica abaixo da meta do Banco do Japão, complicando a comunicação sobre juros.
- A China promete um comércio mais equilibrado e uma abertura econômica maior após registrar superávit recorde.
- Kim Jong Un afirma que o status nuclear da Coreia do Norte é irreversível e volta a ameaçar o Sul.
- Austrália e União Europeia fecham um acordo comercial esperado há muito tempo em meio a tensões globais no comércio.
- O Partido Comunista do Vietnã realiza reunião com novas lideranças estatais prestes a ser indicadas.
O reencontro da Índia com o carvão
Um verão mais quente que a média está no horizonte, com o serviço meteorológico da Índia prevendo um número acima do normal de dias de onda de calor entre abril e junho deste ano. A demanda de energia deverá atingir um recorde de 270 gigawatts durante a temporada, segundo estimativas do governo.
Mesmo em anos normais, os meses de verão já colocam o sistema elétrico do país sob forte pressão nos períodos de pico. Mas o que tornou a situação especialmente delicada neste ano foi o conflito no Oriente Médio, que apertou a oferta de gás. Embora o gás responda por apenas cerca de 2% da geração total de energia da Índia, o país costuma usar aproximadamente 8 gigawatts de energia movida a gás durante períodos de pico de consumo ou ondas de calor.
Isso fez com que Nova Délhi e os governos estaduais corressem para reforçar a geração a carvão, justamente a fonte que o país tenta reduzir no longo prazo para cumprir seus compromissos de descarbonização.
O estado de Gujarat saiu na frente ao aprovar, na semana passada, um acordo revisado de fornecimento de energia com a Tata Power e abrir caminho para que a empresa retomasse o abastecimento de longo prazo a partir de sua usina de Mundra, de 4 gigawatts. Construída para operar com carvão importado, a planta ficou parada por meses depois que regras de compensação do governo expiraram.
Agora, o governo central determinou que a usina de Mundra opere em capacidade total de 1º de abril a 30 de junho e pode estender a diretriz a outras usinas abastecidas com carvão importado, dependendo do comportamento da demanda.
A Índia é o segundo maior produtor e consumidor de carvão do mundo. O país possui 210 milhões de toneladas de estoques de carvão, o suficiente para 88 dias de consumo, e o governo orientou as concessionárias movidas a carvão a evitar interrupções, retirar unidades de manutenção e se preparar para operar no limite máximo.
O primeiro-ministro Narendra Modi afirmou na segunda-feira que a Índia possui suprimento de carvão suficiente para atender à alta da demanda de eletricidade, apesar das interrupções energéticas causadas pelo conflito no Oriente Médio.
O gás é o elo mais fraco
O gás continua sendo o ponto mais vulnerável do sistema.
A Índia já acionou cláusulas emergenciais para desviar o escasso gás disponível para residências e para a produção de fertilizantes.
As famílias e empresas já vinham enfrentando dificuldades para se adaptar ao aperto no fornecimento de gás de cozinha, e agora o problema se amplia para a geração elétrica.
Os fornecimentos de gás vindos do Catar e de Abu Dhabi foram atingidos pela guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, o que levou fornecedores a declarar força maior e congelar licitações indianas de gás natural liquefeito para o verão. A NTPC, uma das principais concessionárias do país, afirma que não conseguirá oferecer geração a gás entre abril e junho.
O conflito no Oriente Médio também forçou concessionárias em toda a Ásia, de Bangladesh ao Japão, a voltar para o carvão, à medida que os preços do LNG dobraram e as remessas pelo Estreito de Hormuz ficaram travadas.
Otimismo com o armazenamento por baterias
No horizonte mais longo, o Plano Nacional de Adequação de Geração da Índia prevê uma quadruplicação da energia solar e uma triplicação da energia eólica até 2035-36, elevando a capacidade não fóssil para 786 gigawatts e reduzindo a participação do carvão na geração para menos de 50%.
Essa transição pressupõe um forte crescimento da capacidade de armazenamento, com a geração hidrelétrica reversível devendo aumentar 13 vezes e o armazenamento por baterias alcançando 80 gigawatts até 2035-36, contra apenas 0,27 gigawatt atualmente.
Esse potencial já atrai nomes de peso. A Tesla iniciou contratações para seu negócio de armazenamento de energia na Índia, juntando-se aos grupos Reliance e Adani na corrida para construir sistemas de armazenamento em escala de concessionária.
O governo também trabalha para acelerar a conclusão de projetos de baterias a fim de atender à demanda nas noites de verão, quando a geração solar diminui, mas o consumo residencial para refrigeração continua alto.
“Cerca de 2,5 gigawatts-hora de armazenamento por baterias já estão em fase de comissionamento, e esperamos que isso seja concluído muito rapidamente”, disse à Reuters o secretário de energia Pankaj Agarwal.
A mobilização total da Índia — carvão no máximo, renováveis sendo integradas à rede e armazenamento sendo acelerado — é o primeiro grande teste de estresse do país sobre como funciona um sistema elétrico atingido ao mesmo tempo pela volatilidade climática e pela volatilidade geopolítica.
A grande pergunta agora é: como deve ser um sistema elétrico verdadeiramente seguro para a Índia?
O mercado também sente a pressão
O índice Nifty 50 da Índia registrou, na primeira metade de março de 2026, sua maior queda em quinze dias dos últimos seis anos.
As vendas estrangeiras em ações indianas aumentaram fortemente no início de março, com os papéis do setor financeiro liderando as maiores saídas em quinze dias dos últimos 17 meses, arrastando o Nifty 50 para seu pior desempenho em duas semanas desde a crise provocada pela COVID-19 em março de 2020.
Essa pressão no mercado financeiro reforça a percepção de que o tema energético não está isolado. Ele afeta confiança, fluxo de capital, expectativas de crescimento e o sentimento geral sobre o risco no país.
A leitura obrigatória da semana
O governo da Índia propôs de forma reservada que fabricantes de smartphones, como Apple, Samsung e Google, considerassem a pré-instalação do aplicativo de identificação Aadhaar nos aparelhos para ampliar o acesso ao sistema. A iniciativa, porém, enfrentou forte resistência de grupos da indústria, que citaram preocupações com segurança, custos e processo de fabricação.
As empresas argumentaram que a exigência de pré-instalação tornaria necessária a criação de linhas de produção separadas e ofereceria benefício público limitado, destacando uma tensão crescente entre Nova Délhi e as grandes empresas de tecnologia sobre o uso de aplicativos apoiados pelo governo em smartphones.
Um teste de segurança energética, e não apenas de geração
O que está acontecendo neste momento na Índia vai além de um simples aumento sazonal da demanda elétrica. O país está enfrentando um teste concreto de segurança energética.
Por um lado, há o calor extremo, que eleva o uso de ar-condicionado, ventiladores, sistemas de refrigeração, bombeamento de água e consumo residencial em geral. Por outro lado, há uma guerra externa que encarece combustíveis, interrompe cadeias de suprimento e reduz a flexibilidade operacional do sistema.
A resposta indiana tem sido pragmática. Em vez de depender de uma única solução, o governo está recorrendo a uma estratégia de “todos os combustíveis disponíveis”:
- maximização da geração a carvão;
- ativação de usinas com carvão importado;
- integração acelerada de fontes renováveis;
- avanço mais rápido de projetos de armazenamento;
- realocação emergencial do gás para usos prioritários.
Esse conjunto mostra uma coisa com clareza: em momentos de crise real, a confiabilidade do sistema pesa mais do que o discurso de transição.
O carvão ainda sustenta o sistema
A realidade é que o carvão continua sendo o principal pilar de estabilidade da rede elétrica indiana.
Mesmo com o avanço das renováveis, o país ainda depende dele para garantir carga de base, segurança operacional e capacidade de resposta nos horários de pico.
Isso não significa que a transição energética parou. Significa apenas que ela ainda não chegou ao ponto em que pode substituir o carvão em momentos extremos.
E esse é justamente o aprendizado mais duro do atual episódio. Ter capacidade renovável instalada é importante, mas não basta. É preciso contar com:
- armazenamento em escala suficiente;
- transmissão eficiente;
- flexibilidade de despacho;
- planejamento de combustível;
- redundância logística.
Sem isso, qualquer choque externo volta a recolocar o carvão no centro da equação.
Conclusão
A Índia entra no verão de 2026 diante de um dos mais duros testes energéticos dos últimos anos. O calor extremo e a guerra no Oriente Médio estão pressionando ao mesmo tempo a demanda e a oferta, obrigando o país a acelerar geração a carvão, integrar mais renováveis e correr para concluir projetos de armazenamento por baterias.
O carvão, mais uma vez, reaparece como a principal âncora do sistema. O gás, que poderia oferecer flexibilidade em momentos críticos, tornou-se o elo mais fraco por causa da interrupção dos fluxos globais. As renováveis continuam avançando, mas ainda não têm escala suficiente para assumir sozinhas o papel de proteção em um estresse desse tamanho.
No fim, os próximos meses mostrarão com clareza se a Índia consegue atravessar esse período com apagões pontuais ou se a pressão sobre o sistema vai se tornar um problema muito mais amplo para famílias, empresas e governos.
Mais do que um teste de verão, este momento pode revelar o que realmente significa segurança energética para a Índia em um mundo marcado simultaneamente por clima extremo e instabilidade geopolítica.