Com a dívida do governo americano acima de US$ 40 trilhões e os juros de longo prazo em alta, Jim Rickards argumenta que Washington não precisa quitar integralmente suas obrigações. Para o autor de “Currency Wars”, o objetivo é refinanciar a dívida a taxas razoáveis enquanto a inflação reduz, ao longo do tempo, o valor real dos dólares devidos.
Segundo Rickards, o governo já gasta aproximadamente US$ 1 trilhão por ano apenas com juros. Na quinta-feira, o rendimento do Treasury de dez anos chegou a 5,34%, maior nível desde 2002, enquanto uma liquidação global pressionava os mercados de títulos.
O movimento também alcançou outros países. O rendimento britânico de 30 anos ultrapassou 6% pela primeira vez desde 1998, e um índice da Bloomberg para dívida governamental registrou seu pior trimestre desde 2024.
Para Rickards, juros mais altos tornam o refinanciamento americano progressivamente mais caro. Sua tese, porém, não aponta o pagamento da dívida ou cortes de despesas como principal saída. Ele considera que a inflação pode reduzir o peso real dessas obrigações, transferindo parte do custo para quem mantém patrimônio denominado em dólares.
Dívida pode perder peso mesmo continuando a crescer
Rickards utiliza o período posterior à Segunda Guerra Mundial para explicar seu argumento. Segundo os dados citados, a dívida federal alcançou aproximadamente 118% do PIB em 1946 e caiu para cerca de 31% em 1981.
Ele destaca a diferença entre PIB real e PIB nominal. O segundo incorpora tanto a expansão real da economia quanto a inflação. Dessa forma, preços mais altos podem elevar o PIB nominal e reduzir a relação entre dívida e atividade econômica, mesmo quando o valor nominal das obrigações continua aumentando.
Na interpretação de Rickards, esse mecanismo favorece grandes devedores porque o montante nominal devido permanece igual, mas os dólares utilizados posteriormente para pagar ou refinanciar essas obrigações possuem menor poder de compra.
Ele identifica os Estados Unidos como o maior devedor do mundo e considera essa dinâmica fundamental para compreender como uma dívida muito elevada pode ser administrada ao longo de décadas.
Fed afirma combater inflação enquanto Rickards olha para o longo prazo
A posição apresentada por Rickards não corresponde à mensagem oficial do Federal Reserve. O banco central afirma combater a inflação e elevou os juros em setembro pela primeira vez desde 2023.
O presidente do Fed, Kevin Warsh, afirmou que a inflação permaneceu alta demais por tempo excessivo. Rickards, entretanto, argumenta que, em horizontes de décadas, a matemática associada à dívida pode prevalecer sobre promessas de manter permanentemente uma inflação baixa.
Sua tese não exige uma explosão imediata dos preços. Ele afirma que uma inflação de 3% reduz aproximadamente pela metade o valor do dólar em cerca de 24 anos. Em uma carreira de 48 anos, segundo seu exemplo, a perda acumulada alcançaria aproximadamente três quartos do valor inicial.
Com inflação de 4% ou 5%, Rickards considera que a deterioração ocorre mais rapidamente. Ele compara o dólar a um cubo de gelo derretendo na mão, destacando como taxas aparentemente moderadas podem produzir efeitos significativos quando persistem durante muitos anos.
Famílias já enfrentam pressão entre renda, gastos e poupança
Os números domésticos citados na newsletter mostram parte dessa pressão. Os americanos aumentaram seus gastos ajustados pela inflação em 0,6% em agosto, maior avanço desde março de 2025.
Ao mesmo tempo, a renda ajustada pela inflação não cresceu. A taxa de poupança caiu para 4,1%, seu menor nível desde 2022, segundo o Bureau of Economic Analysis.
Rickards considera aposentados particularmente vulneráveis porque reajustes de benefícios chegam depois que os preços já subiram. Ele usa a Previdência Social como exemplo: qualquer aumento dos pagamentos em 2027 será baseado na inflação registrada em 2026.
Isso significa, em sua avaliação, que beneficiários permanecem ligeiramente atrasados em relação ao movimento dos preços.
Rickards identifica como principais vítimas as pessoas que não possuem ativos ou dependem de rendimentos fixos que não conseguem se ajustar rapidamente à inflação. É nesse contexto que ele apresenta ativos reais como forma de proteção contra a perda gradual do poder de compra.
Reservas russas reforçam argumento de Rickards sobre ouro
Para Rickards, um dos exemplos mais claros da utilidade do ouro ocorreu em 2022, quando governos ocidentais congelaram aproximadamente US$ 300 bilhões das reservas russas mantidas no exterior.
O ouro armazenado pela Rússia dentro do país não podia ser alcançado da mesma forma. Rickards afirma que Moscou obteve mais de US$ 150 bilhões em ganhos de marcação a mercado sobre suas reservas de ouro.
Segundo dados citados pela reportagem, o banco central russo possuía aproximadamente 73,2 milhões de onças de ouro em 1º de agosto. Considerando cerca de US$ 1.900 por onça no início de 2022 e aproximadamente US$ 4.160 atualmente, essas reservas passaram a valer aproximadamente US$ 165 bilhões adicionais.
Para Rickards, o episódio mostrou duas características: o metal mantido internamente permaneceu fora do alcance americano e sua valorização aumentou o valor das reservas russas.
Ouro permanece acima do nível de um ano atrás
O ouro atingiu um recorde de US$ 5.589,38 por onça em 28 de janeiro e era negociado perto de US$ 4.158 na quinta-feira. Apesar da queda em relação ao pico, permanecia acima dos aproximadamente US$ 3.866 registrados um ano antes.
Rickards não espera que bancos centrais sejam responsáveis pelo próximo grande salto do metal. Ele acredita, porém, que suas compras ajudam a estabelecer um piso para os preços.
Ele descreve essa configuração como uma negociação assimétrica, na qual o potencial de queda seria limitado pela presença recorrente dos bancos centrais como compradores.
Rickards também diferencia possuir ouro físico de manter instrumentos financeiros vinculados ao metal. Em sua visão, futuros, contratos não alocados, opções e ETFs representam contratos, e não a propriedade direta do ouro.
Inflação mais branda não significa queda dos preços
Dados recentes trouxeram algum alívio para os mercados. O núcleo do índice PCE, indicador de inflação acompanhado pelo Fed, avançou 0,2% em agosto e 3,0% em relação ao ano anterior, abaixo dos 3,3% esperados pelos economistas.
Após o resultado, as probabilidades de outra alta dos juros em outubro caíram para 34,9% na quarta-feira, contra 70,9% uma semana antes, segundo o CME FedWatch citado na newsletter.
Rickards espera que o Fed mantenha os juros inalterados na reunião de 27 e 28 de outubro. Para dezembro, sua expectativa é diferente: ele considera provável uma nova elevação.
Mesmo com números de inflação mais moderados, Rickards rejeita a ideia de que o problema tenha desaparecido. Ele destaca que uma redução na taxa de inflação significa apenas que os preços estão aumentando mais lentamente, não que estejam diminuindo.
Os preços permanecem muito acima dos níveis anteriores ao salto de 2022, quando a inflação anual atingiu 9,1%.
China reduz Treasuries enquanto continua comprando ouro
As posições chinesas em Treasuries americanos caíram para US$ 618 bilhões, menor nível desde 2008, segundo dados do Tesouro citados na reportagem.
Embora alguns investidores interpretem a redução como afastamento do dólar, Rickards apresenta uma leitura diferente. Ele argumenta que a China vende Treasuries porque precisa de dólares, e não porque deseja abandonar a moeda americana.
Em sua avaliação, Pequim precisa de liquidez para apoiar o yuan e fortalecer bancos expostos a empréstimos problemáticos denominados em dólares. Rickards interpreta, portanto, o movimento como sinal de escassez global de dólares e fraqueza chinesa.
Paralelamente, a China continua acumulando ouro. O Banco Popular da China informou possuir 2.387 toneladas em agosto, marcando seu 22º aumento mensal consecutivo, segundo os dados citados.
Bancos centrais globalmente compraram aproximadamente 1.000 toneladas anuais durante quatro anos, de acordo com informações do World Gold Council mencionadas na newsletter.
Japão adiciona pressão ao mercado de títulos
O Japão também aparece na análise de Rickards. O rendimento do título japonês de dez anos atingiu 3% no mês passado pela primeira vez desde 1996.
Esse movimento ameaça operações nas quais investidores tomam empréstimos baratos em ienes e aplicam os recursos no exterior. Rickards espera que investidores sofisticados tentem abandonar essas posições antes que uma saída mais ampla comece.
Energia pode alimentar a próxima onda inflacionária
Rickards acredita que a próxima pressão significativa sobre os preços pode vir da energia. O spread de crack do diesel, diferença entre petróleo bruto e diesel refinado, alcançou recorde de aproximadamente US$ 110 por barril em setembro.
Rickards afirma que um carregamento de petróleo disponível para entrega imediata pode custar entre US$ 130 e US$ 140 por barril, bem acima dos futuros do Brent próximos de US$ 100 na quinta-feira.
Sua preocupação principal está no diesel. Como mercadorias dependem de caminhões em alguma etapa do transporte, custos maiores do combustível podem, segundo ele, elevar os preços de diversos produtos.
Ativos reais permanecem no centro da estratégia de Rickards
Rickards afirma seguir uma abordagem semelhante à utilizada por ele na década de 1970. Sua lista inclui imóveis, ouro, prata e outros ativos reais como formas de enfrentar a perda de valor do dinheiro.
A lógica é que ativos podem se valorizar enquanto os dólares perdem poder de compra. Sua tese parte de uma dívida federal superior a US$ 40 trilhões, juros anuais próximos de US$ 1 trilhão e custos de refinanciamento maiores.
Rickards não espera que Washington quite a dívida. Ele acredita que inflação e crescimento do PIB nominal podem reduzir seu peso real.
Essa é a interpretação de Rickards, não uma política do Federal Reserve. O banco central afirma combater a inflação. Para Rickards, poupadores devem avaliar a perda de poder de compra, razão pela qual ainda mantém o ouro e outros ativos reais no centro de sua estratégia.