O petróleo iraniano está desaparecendo do mercado justamente quando a China, seu principal comprador, começa a recuperar a demanda por petróleo bruto. A combinação está pressionando refinarias independentes chinesas, que durante a crise dependeram dos barris iranianos, e obrigando essas empresas a procurar alternativas mais caras em outras regiões.
O impacto não fica restrito à China. Cada barril substituto comprado por refinarias chinesas reduz a disponibilidade para outros compradores. Ao mesmo tempo, o Irã enfrenta uma situação na qual seu próprio petróleo permanece bloqueado enquanto cerca de 13 milhões de barris por dia atravessam o Estreito de Ormuz, aproximadamente 5 milhões abaixo do nível anterior à crise.
China tornou-se o único comprador do petróleo iraniano
O petróleo iraniano ocupava uma posição relevante no equilíbrio global antes da atual redução dos embarques. Depois da queda do governo de Bashar al-Assad, em dezembro de 2024, e do rompimento da relação política que sustentava os envios iranianos para a Síria, a China tornou-se o único comprador do petróleo bruto do Irã.
Em 2025, os chineses receberam, em média, 1,4 milhão de barris por dia. A guerra iniciada pelos Estados Unidos e Israel no final de fevereiro tornou inicialmente o Irã ainda mais importante para compradores chineses.
Enquanto Teerã impedia outros petroleiros de atravessar Ormuz, seus próprios carregamentos continuavam passando. Com isso, as compras chinesas de petróleo iraniano subiram para aproximadamente 1,76 milhão de barris por dia em abril.
Essa vantagem terminou depois do bloqueio americano anunciado em 13 de abril. Petroleiros carregados deixaram de conseguir sair do Golfo, enquanto navios vazios não conseguiam entrar.
Carregamentos de Kharg Island despencaram após o bloqueio
Os carregamentos em Kharg Island, principal terminal de exportação iraniano, caíram de 1,8 milhão de barris por dia em março para apenas 260 mil em maio.
Um memorando de 17 de junho permitiu a passagem de cargas iranianas durante 60 dias e proporcionou alívio temporário. Os carregamentos se recuperaram para 740 mil barris por dia em junho e 890 mil em julho.
A trégua expirou em agosto. Os embarques voltaram a cair, chegando a 250 mil barris por dia. Em setembro, não foram observados carregamentos iranianos no Golfo.
Entretanto, uma parte importante da oferta destinada à China estava fora do estreito. O Irã havia acumulado um grande estoque flutuante, permitindo que entregas continuassem mesmo quando novas cargas não conseguiam deixar o Golfo.
Em meados de abril, esse estoque chegava a aproximadamente 160 milhões de barris, distribuídos por águas do Sul, Sudeste e Leste da Ásia.
Estoques flutuantes sustentaram temporariamente as entregas
Utilizando os barris armazenados no mar, a China ainda importou 1,37 milhão de barris por dia de petróleo iraniano em maio, apenas 10% abaixo do nível registrado em fevereiro.
O colchão, porém, começou a diminuir. O estoque flutuante caiu para 106 milhões de barris em meados de junho. A abertura temporária permitiu sua recuperação para 128 milhões em meados de julho, mas essa reposição posteriormente parou.
A China ainda recebeu 980 mil barris por dia de petróleo iraniano em agosto. Em setembro, o volume caiu para 475 mil barris por dia, e as chegadas cessaram a partir de 26 de setembro. Todos os últimos carregamentos que chegaram haviam sido embarcados em junho.
O Irã ainda possui aproximadamente 86 milhões de barris sobre a água, menor volume desde janeiro de 2025. Entretanto, 23 milhões de barris, mais de um quarto desse total, estão presos dentro do Golfo.
Armazenamento em terra aumenta a pressão sobre a produção
O estoque total praticamente não mudou nas últimas semanas, enquanto as chegadas à China diminuíram para quase zero e os carregamentos visíveis em Kharg Island pararam completamente.
Ao mesmo tempo, os tanques de armazenamento em terra estão enchendo gradualmente. Dados da Kpler citados no relatório indicam que os tanques iranianos estão aproximadamente 60% cheios, armazenando cerca de 70 milhões de barris.
Esse cenário pode obrigar o Irã a reduzir sua produção. Aproximadamente 2,2 milhões de barris por dia estariam relativamente protegidos pela demanda das refinarias domésticas, mas o nível de produção anterior à guerra, de 3,2 milhões de barris por dia, parece não ser mais alcançável nas condições descritas.
Refinarias independentes chinesas precisam buscar novos fornecedores
Para as chamadas teapots chinesas, refinarias independentes menores concentradas principalmente na província de Shandong, a redução do petróleo iraniano remove uma base importante de suas estratégias de abastecimento.
Essas refinarias representam aproximadamente um quinto das importações chinesas de petróleo bruto e construíram suas compras em torno de barris sancionados vendidos com desconto, principalmente provenientes do Irã e da Rússia.
Agora, precisam procurar petróleo mais distante, incluindo cargas do Oriente Médio, África Ocidental e América do Sul. Em meados de setembro, dez refinarias independentes chinesas teriam enviado traders a Singapura para garantir suprimentos disponíveis nessas regiões.
Qingdao amplia compras alternativas, mas recebe menos petróleo
Qingdao, conectado por oleoduto a 12 refinarias independentes, dependia do Irã para 40% dos 690 mil barris por dia recebidos em 2025.
Nos últimos meses, o porto aumentou as compras dos tipos brasileiros Tupi e Búzios e começou a receber o Golden Arrow, da Guiana, em julho. O abastecimento também continua incluindo petróleo saudita e russo.
Apesar da diversificação, o volume recebido caiu para uma mínima recorde de aproximadamente 150 mil barris por dia nos últimos três meses.
Situação semelhante aparece em Dongying, na costa norte de Bohai, em Shandong, próximo de 32 refinarias independentes. Rússia e Irã forneceram praticamente todo o volume de 330 mil barris por dia recebido pelo porto no ano passado, respondendo por dois terços e um terço, respectivamente.
As entregas iranianas começaram a diminuir durante o verão. Apenas duas cargas chegaram em agosto e uma em setembro.
Menor oferta força refinarias a reduzir processamento
O volume total recebido por Dongying caiu para apenas 220 mil barris por dia em setembro. Com menos petróleo disponível, refinarias foram obrigadas a reduzir suas taxas de processamento.
Além da menor disponibilidade, as alternativas são mais caras. O petróleo da Guiana torna-se particularmente oneroso quando viagens longas coincidem com uma escassez sem precedentes de grandes petroleiros e fretes em níveis recordes.
Para incentivar as refinarias independentes a elevar a atividade, o governo chinês concedeu mais 28,05 milhões de toneladas em cotas de importação de petróleo bruto no final de setembro.
A medida elevou a alocação anual para importações não estatais ao recorde de 257 milhões de toneladas. Essas cotas determinam quanto petróleo as refinarias estão autorizadas a importar. O aumento oferece espaço regulatório para comprar mais, mas não torna os barris disponíveis nem reduz seus preços.
Disputa pelo petróleo russo também está ficando mais cara
A concorrência por petróleo russo está aumentando. As compras chinesas teriam elevado o diferencial do ESPO a um prêmio recorde de US$ 28 por barril sobre o Brent ICE.
O Urals também estaria sendo negociado entre US$ 7 e US$ 8 por barril acima do mesmo referencial. As refinarias independentes precisam ainda competir com compradores estatais, que atualmente representam aproximadamente metade das importações marítimas chinesas de petróleo bruto, contra 45% em fevereiro.
Essa disputa ocorre quando a recuperação da demanda chinesa ainda está em estágio inicial. As importações marítimas de petróleo bruto aumentaram de 7,24 milhões de barris por dia em agosto para 7,5 milhões em setembro.
Mesmo assim, continuam muito abaixo dos 11,5 milhões de barris por dia registrados em fevereiro.
Reservas estratégicas diminuíram durante a crise
A queda das importações entre abril e julho ocorreu em um período marcado pela proibição de exportações de produtos de refino determinada por Pequim, menores taxas de processamento e uma mudança gradual para utilização das reservas estratégicas de petróleo.
As reservas estratégicas chinesas, incluindo volumes estatais e privados, permanecem em 1,12 bilhão de barris, abaixo dos 1,25 bilhão registrados em abril.
Ormuz volta ao centro dos riscos para o mercado
Para Teerã, o desequilíbrio está ficando mais difícil de sustentar. As negociações de paz continuam sem avanço, o petróleo iraniano permanece bloqueado e as receitas de exportação estão pressionadas.
Enquanto isso, barris de produtores vizinhos estão atravessando Ormuz em um ritmo surpreendentemente forte de aproximadamente 13 milhões por dia. A recuperação oferece alívio aos compradores, mas também cria uma vulnerabilidade dentro do cenário apresentado.
Enquanto o Irã não consegue exportar normalmente, o artigo argumenta que Teerã possui pouco incentivo econômico para preservar uma situação na qual os barris dos países vizinhos continuam atravessando o estreito.
A crescente pressão financeira poderia, segundo essa avaliação, levar o Irã a interromper esses fluxos de maneira ainda mais intensa. Isso é apresentado como um risco potencial, e não como uma decisão já tomada por Teerã.
Mercado enfrenta dois riscos conectados de oferta
O mercado de petróleo enfrenta, assim, duas pressões relacionadas. Primeiro, a China precisa encontrar substitutos para o petróleo iraniano enquanto sua demanda começa a se recuperar. As refinarias independentes já procuram cargas no Oriente Médio, África Ocidental e América do Sul, ao mesmo tempo que enfrentam custos maiores de transporte e crescente concorrência pelo petróleo russo.
O desaparecimento dos barris iranianos já reduz a disponibilidade e força compradores chineses a competir por alternativas. Uma nova interrupção de Ormuz ampliaria o problema ao restringir também parte dos barris usados para substituir a oferta iraniana.
Essa combinação transforma a redução das exportações iranianas em uma questão mais ampla para o mercado. A China precisa de novas fontes justamente quando alternativas estão mais caras, enquanto Teerã enfrenta limitações crescentes para produzir e exportar. Se a recuperação chinesa continuar enquanto os barris iranianos permanecerem ausentes, a disputa pela oferta disponível tende a ganhar importância dentro do cenário descrito.