O dólar americano terminou praticamente estável na quinta-feira, após uma sessão marcada por fortes oscilações ligadas aos sinais contraditórios sobre um possível acordo entre Estados Unidos e Irã. Os operadores primeiro reforçaram posições no dólar após informações indicarem que o líder supremo iraniano teria proibido a exportação do urânio próximo ao grau militar. Depois, a moeda apagou os ganhos após relatos não confirmados de que Washington e Teerã teriam chegado a uma versão final de acordo para encerrar a guerra.
Essa reação mostra como o mercado de câmbio continua dominado por geopolítica, energia e expectativas de política monetária. O conflito no Oriente Médio segue perturbando os mercados de energia, alimentando temores inflacionários e sustentando a demanda por ativos de proteção, incluindo o dólar.
O índice do dólar, que mede a moeda americana contra uma cesta de divisas importantes, ficou estável em torno de 99,13. O euro recuou levemente para US$1,1624, enquanto a libra esterlina avançou marginalmente para US$1,3441. O iene japonês continuou pressionado perto de 158,92 por dólar, próximo da zona de 160 que já havia provocado intervenção japonesa no mercado cambial.
Dólar reage às notícias sobre o Irã
O principal motor da sessão foi a sequência de notícias contraditórias sobre as negociações entre Washington e Teerã. O dólar inicialmente se beneficiou de uma onda de cautela após informações afirmarem que o Irã recusava deixar sair do país seu estoque de urânio altamente enriquecido.
Para os Estados Unidos, esse estoque está no centro do dossier nuclear. Washington avalia que o urânio próximo do grau militar poderia ser usado em um programa de armamento, enquanto Teerã continua afirmando que seu programa nuclear tem fins pacíficos.
O presidente Donald Trump declarou que os Estados Unidos acabarão recuperando o estoque iraniano de urânio altamente enriquecido. Essa posição mantém forte pressão sobre as negociações, pois entra em conflito com as linhas vermelhas iranianas.
No entanto, os ganhos do dólar foram rapidamente anulados quando relatos não confirmados mencionaram uma versão final de acordo entre os dois países. Essa alternância de sinais explica a volatilidade da moeda americana.
Dólar mantém papel de porto seguro
Mesmo sem avanço expressivo na sessão, o papel do dólar como porto seguro continua importante. Uma guerra prolongada no Oriente Médio representa risco para os mercados globais, principalmente por causa das perturbações energéticas.
Quando investidores temem alta duradoura do petróleo, inflação persistente ou nova escalada militar, tendem a buscar ativos líquidos e considerados mais seguros. O dólar costuma se beneficiar dessa dinâmica.
O conflito com o Irã também ameaça ter efeitos mais amplos sobre os preços ao consumidor. Perturbações prolongadas nas rotas energéticas podem se transmitir ao petróleo, gás, transporte, custos de produção e bens de consumo. Se a inflação americana permanecer elevada, o Federal Reserve pode ser levado a manter uma política mais restritiva ou até considerar novas altas de juros.
Essa perspectiva apoia o dólar, pois juros americanos mais altos aumentam o apelo de ativos denominados em dólar.
Inflação energética complica a tarefa do Fed
O Fed está em uma posição delicada. De um lado, precisa monitorar riscos de desaceleração econômica. De outro, não pode ignorar uma inflação alimentada pela alta dos preços de energia.
Dados americanos divulgados na quinta-feira mostraram queda nos pedidos semanais de auxílio-desemprego. Isso indica que o mercado de trabalho continua sólido, dando ao Fed mais espaço para focar no combate à inflação.
Nesse contexto, investidores não falam mais apenas em juros elevados por mais tempo. Eles também começam a considerar a possibilidade de uma nova alta caso a inflação se fortaleça. Essa mudança altera a dinâmica do mercado de câmbio.
Um dólar forte pode pesar sobre exportações americanas, mas também pode refletir confiança relativa na economia dos Estados Unidos em comparação com outras regiões. Por enquanto, os dados americanos seguem mais resistentes que os de várias grandes economias desenvolvidas.
PMIs fracos reforçam vantagem relativa do dólar
Os indicadores PMI divulgados na Europa, Reino Unido e Japão reforçaram preocupações com o crescimento global. Na zona do euro, a atividade econômica contraiu no ritmo mais rápido em mais de dois anos e meio, pressionada pelo aumento do custo de vida ligado à guerra e pela fraqueza da demanda por serviços.
No Reino Unido, empresas enfrentam a queda mais ampla de atividade em mais de um ano. No Japão, o setor manufatureiro desacelerou e o crescimento dos serviços parou pela primeira vez em mais de um ano.
Esses sinais fracos dão vantagem relativa ao dólar. Mesmo que os Estados Unidos enfrentem inflação persistente, sua economia parece resistir melhor do que a de outras regiões. Para o mercado de câmbio, o crescimento relativo é muito importante.
Quando Europa, Reino Unido ou Japão parecem mais expostos à alta dos custos de energia, suas moedas podem ser penalizadas. O dólar, por sua vez, se beneficia tanto do status de porto seguro quanto de perspectivas econômicas mais sólidas.
Euro continua pressionado apesar das expectativas de alta de juros
O euro recuou levemente frente ao dólar. Essa fraqueza se explica pelos números ruins de atividade na zona do euro. A contração econômica e a pressão sobre a demanda por serviços alimentam temores de recessão.
Ainda assim, o Banco Central Europeu pode voltar a elevar juros. Alguns economistas avaliam que os dados não bastam para impedir uma alta de 25 pontos-base em junho. O problema é que o BCE enfrenta um dilema parecido com o do Fed, mas em um contexto de crescimento mais frágil.
Uma alta de juros pode, em teoria, apoiar o euro. Mas, se ocorrer enquanto a economia desacelera fortemente, também pode ampliar os riscos de recessão. Por isso, a moeda europeia não se beneficiou totalmente das expectativas de aperto monetário.
Investidores, portanto, enxergam uma diferença entre Estados Unidos e zona do euro: ambos podem enfrentar inflação elevada, mas a economia americana parece melhor posicionada para absorver juros altos.
Libra esterlina resiste levemente
A libra esterlina avançou levemente frente ao dólar, apesar de dados mostrarem uma queda generalizada da atividade empresarial britânica. Essa resistência pode refletir ajustes técnicos ou expectativas de política monetária no Reino Unido.
No entanto, o contexto britânico permanece frágil. A alta dos custos de energia, a fraqueza da atividade e as tensões sobre o poder de compra continuam pesando sobre a economia. Se os dados se deteriorarem ainda mais, a libra pode perder apoio.
Assim como no caso do euro, o problema da libra é que altas de juros podem sustentar a moeda no curto prazo, mas enfraquecer o crescimento no médio prazo. Investidores precisam, portanto, equilibrar rendimento monetário e risco econômico.
Iene se aproxima de zona sensível
O iene japonês continua sendo uma das moedas mais observadas. O dólar era negociado em torno de 158,92 ienes, perto da zona de 160 que provocou intervenção japonesa no mês passado.
A fraqueza do iene tornou-se um tema importante para Tóquio. Uma moeda fraca encarece importações, especialmente energia, o que alimenta a inflação doméstica. Em um contexto de guerra no Oriente Médio e preços elevados do petróleo, essa pressão fica mais difícil de ignorar.
O Banco do Japão pode, portanto, ser pressionado a elevar juros em ritmo adequado. Junko Koeda, membro do conselho do Banco do Japão, indicou que as pressões ligadas ao conflito podem empurrar a inflação subjacente acima da meta de 2%.
Essa declaração reforça a hipótese de uma alta já em junho. Mas o Banco do Japão também precisa lidar com a volatilidade no mercado de títulos e com pedidos de alguns investidores para desacelerar ou suspender seu plano de redução das compras de bônus.
Mercado acompanha risco de intervenção japonesa
A proximidade do nível de 160 ienes por dólar mantém traders em alerta. O Japão já interveio recentemente para apoiar sua moeda. Se o iene enfraquecer mais, as autoridades podem ser tentadas a agir novamente.
No entanto, intervenção cambial não resolve tudo. Se o diferencial de juros entre Estados Unidos e Japão continuar amplo, a pressão sobre o iene pode persistir. A mudança real viria de uma política monetária japonesa mais firme ou de uma queda nos rendimentos americanos.
Por enquanto, os dois fatores continuam incertos. Os rendimentos americanos são sustentados por inflação e Fed, enquanto o Banco do Japão avança com cautela.
O que os traders devem observar
O primeiro fator a acompanhar é a evolução das negociações entre Estados Unidos e Irã. Um acordo crível poderia reduzir a demanda por dólar como porto seguro e pesar sobre a moeda americana. Por outro lado, um fracasso poderia reacender a aversão ao risco e fortalecer o dólar.
O segundo fator é o petróleo. Se as perturbações energéticas persistirem, os temores inflacionários continuarão fortes, o que pode apoiar o dólar via expectativas de juros americanos.
O terceiro elemento é o Fed. Cada dado de inflação, emprego ou consumo será analisado para avaliar se o banco central pode manter os juros ou precisará elevá-los.
O quarto ponto é o crescimento global. PMIs fracos na Europa, no Reino Unido ou no Japão reforçam a vantagem relativa dos Estados Unidos.
Por fim, o iene continua no radar. Se o dólar ultrapassar ou voltar a se aproximar do nível de 160 ienes, o risco de intervenção japonesa pode aumentar.
Conclusão
O dólar foi fortemente sacudido na quinta-feira por sinais contraditórios em torno das negociações entre Estados Unidos e Irã. As informações sobre a recusa iraniana de exportar seu urânio inicialmente apoiaram a moeda americana, antes que rumores de uma versão final de acordo apagassem esses ganhos.
Ainda assim, o dólar mantém vários apoios: seu status de porto seguro, a resiliência relativa da economia americana, a fraqueza dos PMIs globais e as expectativas de juros elevados do Fed. Enquanto a guerra continuar afetando a energia e alimentando a inflação, o dólar deve permanecer no centro dos fluxos de mercado.
A situação, porém, continua instável. Um acordo com o Irã poderia reduzir o prêmio de risco e enfraquecer o dólar. Um fracasso das negociações poderia, ao contrário, renovar a demanda por segurança e fortalecer a moeda americana. Para os traders, o mercado cambial segue dependente da diplomacia, do petróleo e das próximas decisões dos bancos centrais.