A próxima grande batalha de escalabilidade do Ethereum pode não estar apenas no número de transações processadas por segundo.
O problema também é quanto cada nova atividade obriga os nós a armazenar para sempre.
Vitalik Buterin destacou em 16 de agosto uma linha de pesquisa que tenta atacar exatamente essa questão, combinando o sistema tradicional de contas do Ethereum com estruturas de pagamento inspiradas no modelo UTXO e técnicas criptográficas para reduzir a carga de verificação.
A ideia ainda está em desenvolvimento e não faz parte de um upgrade confirmado.
O problema é a acumulação permanente de dados
Ethereum utiliza um modelo de contas.
Saldos, contratos e diversas informações necessárias ao funcionamento da rede fazem parte de um estado que precisa ser acompanhado pelos nós.
Quanto mais aplicações e usuários entram no sistema, maior pode ficar essa base.
Esse crescimento cria um problema de longo prazo.
Se os requisitos de armazenamento aumentarem continuamente, operar um nó pode se tornar mais difícil e caro.
Isso pode entrar em conflito com a meta de manter a verificação do protocolo acessível.
Nem todo pagamento precisa de um estado complexo
A proposta de Toni Wahrstätter parte de uma observação simples.
Uma transferência única entre dois usuários não precisa necessariamente ser tratada como um objeto persistente semelhante ao estado de um contrato inteligente.
Esse tipo de pagamento pode ser representado de forma mais eficiente.
A proposta sugere que Ethereum adote UTXOs nativos para essas operações enquanto preserva o sistema de contas para os usos que realmente necessitam dele.
O modelo não transforma Ethereum em Bitcoin
Bitcoin utiliza UTXOs como parte central de sua arquitetura.
Ethereum não pretende abandonar contas.
A proposta seria complementar.
Um pagamento simples poderia utilizar uma representação UTXO.
Uma aplicação DeFi ou outro contrato complexo continuaria funcionando no modelo atual.
Entre esses dois extremos, poderiam existir soluções intermediárias.
Essa flexibilidade é o verdadeiro ponto da estratégia mencionada por Buterin.
Utreexo mostrou como uma estrutura compacta pode substituir grandes conjuntos locais
Buterin citou explicitamente o trabalho desenvolvido em torno de Utreexo.
O projeto de Bitcoin, apresentado por Thaddeus Dryja em 2019, usa um acumulador baseado em hashes para representar o conjunto de saídas não gastas.
Em vez de exigir que cada nó mantenha todo esse conjunto localmente, as próprias transações podem levar provas de inclusão.
O nó verifica a prova contra uma representação muito menor.
A inspiração está no princípio, não na implementação
Ethereum não pretende simplesmente importar Utreexo.
O valor do projeto para os pesquisadores está no princípio de reduzir a quantidade de informação que um nó precisa armazenar diretamente.
Uma rede pode continuar validando operações mesmo quando parte do estado é representada por provas compactas.
Esse conceito se conecta diretamente ao desafio atual de Ethereum.
Mais atividade não deveria obrigatoriamente significar aumento proporcional do estado permanente.
A economia estimada para pagamentos é extrema
A proposta de UTXOs nativos estima que alguns workloads de pagamento poderiam usar aproximadamente 99,8% menos estado permanente.
O sistema não manteria todo o objeto de pagamento ativo indefinidamente.
Grande parte da informação poderia ser comprovada a partir do histórico.
O dado persistente necessário seria principalmente uma indicação compacta de que determinada saída já foi gasta.
Um bilhão de entradas ilustra a diferença
Os cálculos da proposta estimam aproximadamente 300 MB de estado permanente para um bilhão de entradas.
Usando contas ou slots tradicionais de armazenamento, um volume comparável poderia ocupar entre 100 GB e 150 GB.
A diferença é enorme.
Mas esses números ainda são projeções de design.
Não representam benchmarks obtidos no Ethereum mainnet.
Menos estado ajuda diretamente a descentralização
O benefício não se limita a eficiência técnica.
Se um nó precisa de menos armazenamento, mais pessoas e organizações conseguem operá-lo.
Isso ajuda a preservar uma rede onde a verificação não fica concentrada apenas em grandes provedores de infraestrutura.
Buterin relaciona a estratégia de escalabilidade à manutenção de descentralização e resistência à censura.
O custo de verificar o sistema é, portanto, parte central da discussão.
Provas recursivas atacam outro custo
Ao mesmo tempo, Buterin trabalha em uma proposta envolvendo STARKs recursivos no mempool.
Esse trabalho não tenta reduzir diretamente o estado persistente.
O alvo é a largura de banda necessária para distribuir provas de validade entre nós.
Se cada objeto tiver que carregar sua própria prova grande, o tráfego cresce rapidamente.
A recursão tenta agregar essas provas.
O objetivo é impedir que a largura de banda cresça sem controle
No modelo apresentado, os nós periodicamente combinariam várias provas em uma nova prova.
A hipótese utilizada considera STARKs de aproximadamente 128 kB.
Com oito peers e agregações a cada 500 milissegundos, Buterin estima cerca de 2 MB por segundo de tráfego adicional por nó.
O ponto central é que o overhead não cresceria de forma linear com cada novo objeto processado.
Isso não significa transações infinitas
A comunidade rapidamente extrapolou a combinação dessas tecnologias.
Uma interpretação sugeriu que Ethereum poderia processar um volume “ilimitado” de transições UTXO dentro de uma prova compacta.
A pesquisa apresentada por Buterin não faz essa promessa.
Ela trata de custos de prova e largura de banda.
Não define um objetivo oficial de throughput ilimitado.
Também não confirma uma futura estrutura de bloco baseada em provas de 128 kB.
Estado e bandwidth precisam ser tratados separadamente
Esse detalhe mostra por que Ethereum pesquisa várias soluções ao mesmo tempo.
UTXOs nativos podem reduzir armazenamento.
STARKs recursivos podem reduzir custos de propagação e verificação.
Outras propostas podem tratar inclusão, gas, execução ou disponibilidade de dados.
Escalabilidade, nesse contexto, não é um único problema.
É uma coleção de gargalos diferentes.
Frame Transactions é peça importante para o desenho UTXO
A proposta de Toni Wahrstätter depende de EIP-8141.
Conhecida como Frame Transactions, a proposta permitiria organizar validação, pagamento de gas e execução dentro de frames programáveis.
Isso forneceria a estrutura necessária para o mecanismo de gasto preferido no modelo UTXO.
Mas EIP-8141 ainda não tem lugar garantido em um upgrade.
Hegotá ainda não confirmou Frame Transactions
O roadmap atual considera Frame Transactions para Hegotá.
“Considerado” é diferente de “agendado”.
A única proposta formalmente programada para Hegotá no material citado é FOCIL, EIP-7805.
Isso coloca o modelo UTXO em uma posição de dependência.
Antes de pensar em ativação, o Ethereum ainda precisa decidir quais componentes estruturais entrarão na atualização.
O calendário permanece aberto
Hegotá está atualmente previsto para 2027.
Antes dele, Ethereum espera entregar Glamsterdam no quarto trimestre de 2026.
O escopo de Hegotá ainda está sendo definido.
Por isso, não existe neste momento uma data oficial para UTXOs nativos.
A referência de Buterin deve ser entendida como indicação de uma linha de pesquisa que ganhou importância.
Um Ethereum híbrido permitiria especialização
O resultado mais interessante dessa pesquisa seria uma rede que deixa de tratar toda atividade da mesma forma.
Pagamentos simples poderiam utilizar estruturas extremamente compactas.
Aplicações com estado persistente continuariam usando contas.
Outros tipos de transação poderiam utilizar formatos intermediários.
Essa especialização pode ser mais eficiente do que tentar otimizar uma única arquitetura para todos os casos.
O trade-off será manter a experiência coerente
Uma arquitetura híbrida também cria desafios.
Diferentes modelos de estado precisam interagir.
Carteiras e aplicações precisam compreender como mover valor entre estruturas.
Ferramentas de desenvolvimento precisam abstrair essa complexidade.
O benefício técnico só será útil se a experiência de uso continuar previsível.
Essas questões ainda fazem parte do trabalho de pesquisa.
O projeto Lean segue a mesma direção de verificação mais eficiente
A busca por provas recursivas também se conecta a uma reforma mais ampla da forma como Ethereum pensa sua verificação.
O projeto Lean coloca provas criptográficas recursivas em uma posição central dentro de uma possível reconstrução futura.
O objetivo é reduzir quanto cada participante precisa fazer individualmente para confirmar que o sistema está correto.
UTXOs, acumuladores e STARKs fazem parte de uma tendência comum: mover parte do custo de armazenamento e computação para estruturas de prova mais compactas.
A referência a Bitcoin mostra convergência de problemas
Bitcoin e Ethereum possuem arquiteturas muito diferentes.
Mesmo assim, redes descentralizadas maduras acabam enfrentando desafios semelhantes.
Quanto mais tempo funcionam e mais usuários atraem, maior se torna o conjunto de dados que precisa ser verificado.
Utreexo oferece uma resposta desenvolvida dentro do ecossistema Bitcoin.
Ethereum está estudando se princípios semelhantes podem ser adaptados a uma rede muito mais programável.
Conclusão
Vitalik Buterin está apoiando uma direção de pesquisa que pode tornar o Ethereum mais modular na forma como armazena e verifica atividade.
Pagamentos simples poderiam migrar para um modelo UTXO de baixo estado, enquanto contas e smart contracts continuariam existindo para aplicações complexas.
Paralelamente, provas STARK recursivas poderiam reduzir outro gargalo: o volume de dados necessário para propagar validações pela rede.
Ponto-chave final
A importância dessa proposta não está em Ethereum copiar Bitcoin. Está em reconhecer que diferentes tipos de transação não precisam consumir os mesmos recursos. Se o modelo híbrido avançar, Ethereum poderá escalar separando pagamentos simples, estado de contratos e provas de validação em estruturas especializadas. Por enquanto, porém, UTXOs nativos, Frame Transactions e a arquitetura recursiva continuam como pesquisa, sem ativação confirmada no roadmap.