August 9, 2026
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Em Gaza, a busca diária por água revela uma crise de saúde cada vez mais grave

  • août 7, 2026
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Antes do amanhecer, Ibtisam Al-Helou deixa diariamente a barraca onde vive com a família na orla de Gaza para procurar água doce. O Mar Mediterrâneo está a poucos

Em Gaza, a busca diária por água revela uma crise de saúde cada vez mais grave

Antes do amanhecer, Ibtisam Al-Helou deixa diariamente a barraca onde vive com a família na orla de Gaza para procurar água doce.

O Mar Mediterrâneo está a poucos passos, mas conseguir água para beber, cozinhar e se lavar exige uma longa caminhada por diferentes áreas da Cidade de Gaza. A mãe de 40 anos atravessa bairros destruídos seguindo informações sobre os poucos locais onde pode haver alguma distribuição.

Ela começa a busca antes de a temperatura chegar a cerca de 33 graus Celsius ao meio-dia. Na região onde sua família está instalada, a água chega apenas uma vez a cada três dias.

Sua rotina representa uma crise muito mais ampla. Organizações humanitárias, autoridades das Nações Unidas e responsáveis palestinos pela saúde descrevem um colapso sem precedentes dos sistemas de água e saneamento de Gaza.

A população enfrenta ao mesmo tempo sede, propagação de doenças e uma contaminação ambiental cujos efeitos podem permanecer por décadas.

Famílias procuram água antes do nascer do sol

Para Al-Helou, o acesso depende de informações informais sobre bairros onde um caminhão ou ponto de distribuição pode estar disponível.

Ela percorre áreas como Al-Mina, Al-Amadi e Abu Mazen porque nenhuma distribuição regular chega ao local onde mora.

As famílias podem esperar durante horas ao lado de caminhões danificados ou atrasados por ruas cobertas de escombros.

Depois, voltam com poucos litros carregados em galões plásticos, nos ombros, nas costas ou em pequenos carrinhos feitos em casa.

Essa água precisa atender ao consumo, preparo de alimentos, lavagem de utensílios, roupas e higiene pessoal.

Quando os volumes são tão reduzidos, cada uma dessas necessidades compete diretamente com as outras.

Mais de 1,3 milhão recebem menos de seis litros por dia

Segundo avaliações das Nações Unidas, mais da metade da população de Gaza, aproximadamente 1,3 milhão de pessoas, tem acesso a menos de seis litros de água potável por dia.

A organização Médicos Sem Fronteiras considera que a situação pode ser ainda pior. Seus dados indicam uma média de apenas 4,3 litros por pessoa ao dia para a maioria dos moradores.

Antes da guerra, o consumo diário médio era de cerca de 85 litros por pessoa.

A diferença mostra a dimensão da deterioração.

Os volumes atuais não permitem atender adequadamente à hidratação, à alimentação, à limpeza e ao saneamento básico.

Muitos moradores recorrem a água salgada e insalubre para tomar banho ou lavar roupas.

Higiene básica se tornou quase impossível

Antes do conflito, os filhos de Al-Helou podiam se lavar várias vezes ao dia durante o forte calor do verão.

Agora, às vezes conseguem tomar banho apenas uma vez por semana.

Ela é mãe de três filhos, mas cuida de nove crianças no total dentro de sua casa.

A escassez transforma cada tarefa cotidiana em uma escolha difícil.

A água usada para lavar pode faltar na cozinha. A água reservada para beber pode não ser suficiente para limpar utensílios ou roupas.

Nos acampamentos superlotados, a falta de sabão, banheiros adequados e água limpa torna a prevenção de doenças extremamente difícil.

Banhos no mar trazem alívio e risco de infecção

Muitas crianças entram no Mediterrâneo para suportar as altas temperaturas.

A água do mar oferece alívio imediato, mas pode provocar problemas de saúde depois.

Al-Helou relata que seus filhos apresentam coceira, sarna e alergias após nadar. Segundo ela, o tratamento de cada criança pode custar cerca de 50 shekels, ou aproximadamente US$ 17.

Mesmo com esses riscos, moradores dos acampamentos costeiros continuam utilizando o mar porque não dispõem de outra opção.

A poluição da água e a falta de água doce para enxaguar o corpo aumentam a possibilidade de doenças de pele recorrentes.

Doenças se espalham em abrigos lotados

Dados de vigilância da Médicos Sem Fronteiras mostram que infecções respiratórias agudas representam 46% das doenças registradas.

Problemas de pele correspondem a 31%, enquanto a diarreia aquosa aguda responde por 21%.

Autoridades de saúde também detectaram pelo menos 5 mil casos de catapora por semana durante o mês anterior.

Os números mostram como a crise da água e do saneamento afeta diferentes áreas da saúde pública.

Pacientes podem receber tratamento em clínicas, mas retornam para abrigos cheios, com pouco acesso a água limpa, sabão ou instalações sanitárias.

Essas condições favorecem reinfecções, novas contaminações e a transmissão rápida de doenças.

Caminhões-pipa não substituem uma rede pública

Os caminhões de água são uma fonte vital para muitas famílias.

As organizações de ajuda, porém, alertam que eles não podem substituir um sistema público funcional.

Alessandro Mrakic, responsável pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento em Gaza, descreveu a distribuição como uma operação difícil e complexa.

Os veículos precisam atravessar rotas cheias de destroços para alcançar uma população deslocada e dispersa.

Mesmo quando o caminhão chega, sua capacidade é pequena diante do número de pessoas esperando.

A dependência das entregas também cria irregularidade. Uma falha mecânica, uma estrada bloqueada ou um atraso pode deixar um acampamento inteiro sem sua principal fonte de água.

Menos de 100 poços continuam funcionando

Antes da guerra, Gaza possuía aproximadamente 320 poços.

Segundo Said El-Aklouk, responsável pelo monitoramento de saneamento e águas residuais no Ministério da Saúde de Gaza, menos de 100 continuam operacionais.

Ele também afirmou que cerca de 80% da rede de distribuição e a maior parte da capacidade de dessalinização foram danificadas ou destruídas por ataques israelenses.

As forças militares de Israel afirmam que não atacam deliberadamente esse tipo de infraestrutura essencial.

O COGAT, órgão militar responsável por assuntos humanitários, declarou em 9 de julho que trabalhava com agências internacionais para enfrentar problemas de saneamento e higiene e melhorar o fornecimento de água.

Mesmo assim, meses após o cessar-fogo negociado pelos Estados Unidos em outubro, os caminhões ainda são indispensáveis.

Cessar-fogo não restaurou os serviços essenciais

O cessar-fogo de outubro interrompeu os principais combates, mas não encerrou todos os ataques israelenses.

Israel afirma ter como alvo o Hamas e outros combatentes de Gaza considerados uma ameaça imediata.

Para a população, a redução das grandes operações militares não foi acompanhada por uma recuperação suficiente dos serviços básicos.

Redes, estações de dessalinização, unidades de tratamento e estradas necessárias para a distribuição permanecem gravemente danificadas.

As agências de ajuda insistem que o território precisa recuperar um sistema coletivo em vez de depender permanentemente de medidas temporárias.

Esgoto contamina a única fonte natural de água doce

A crise já ultrapassa a falta diária de água.

Os sistemas de saneamento também entraram em colapso, permitindo que esgoto não tratado alcance o aquífero costeiro de Gaza.

Esse aquífero é a única fonte natural de água doce do território.

Segundo El-Aklouk, mais de 300 mil fossas e poços de infiltração estão liberando águas residuais no ambiente e no aquífero.

A contaminação ameaça não apenas a água disponível hoje, mas também a capacidade futura de produzir água utilizável.

Mesmo depois do reparo das tubulações, a degradação da fonte subterrânea pode continuar afetando a saúde e o abastecimento por muitos anos.

Danos ambientais podem durar décadas

Autoridades palestinas afirmam que cada dia sem uma solução aumenta os danos.

Reconstruir uma rede exige tubulações, bombas, eletricidade e instalações de tratamento.

Recuperar uma fonte subterrânea contaminada é muito mais difícil.

Quando esgoto atinge um aquífero, pode introduzir microrganismos, sal e outros poluentes que não desaparecem com simples reparos superficiais.

El-Aklouk declarou que, pela primeira vez, as autoridades efetivamente perderam o controle das fontes de água de Gaza.

Ele classificou o cenário como o pior já enfrentado pelo território.

Crianças estão entre as mais vulneráveis

As crianças acumulam vários fatores de risco.

Elas são mais suscetíveis à desidratação, à diarreia e às doenças transmissíveis quando faltam água e higiene.

Muitas vivem em barracas superlotadas, brincam perto de águas poluídas e entram no mar para suportar o calor.

Quando adoecem, os tratamentos podem ser limitados e as condições de retorno ao abrigo impedem uma recuperação completa.

A escassez transforma doenças comuns em problemas repetidos e potencialmente mais graves.

O que precisa ser restaurado primeiro

A prioridade imediata é ampliar o acesso a uma quantidade suficiente de água potável.

A segunda é reparar poços, tubulações, estações de dessalinização e os sistemas elétricos que mantêm essas estruturas em funcionamento.

A terceira é tratar o esgoto para impedir uma contaminação ainda maior do aquífero costeiro.

Os acampamentos também precisam de sabão, banheiros, pontos de lavagem e sistemas de coleta de resíduos.

Caminhões podem aliviar temporariamente a escassez, mas somente uma infraestrutura reconstruída poderá atender toda a população.

Conclusão

A busca diária de Ibtisam Al-Helou por água expõe a dimensão de uma crise que afeta praticamente todos os aspectos da vida em Gaza.

Mais de 1,3 milhão de pessoas recebem menos de seis litros de água potável por dia, enquanto a Médicos Sem Fronteiras estima uma média real de apenas 4,3 litros para a maioria dos moradores.

Menos de 100 dos 320 poços anteriores à guerra ainda operam, cerca de 80% da rede está danificada e o esgoto contamina o único aquífero natural de água doce.

Ponto-chave final

Gaza já não enfrenta apenas uma escassez temporária. O colapso simultâneo do abastecimento, do saneamento e das condições de saúde criou uma emergência imediata e uma ameaça ambiental de longo prazo que não poderá ser resolvida apenas com caminhões-pipa.

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