O dia 11 de julho marca a Jornada Internacional de Comemoração do genocídio de Srebrenica, ocorrido em 1995, quando mais de 8.000 homens e meninos bósnios muçulmanos foram assassinados após a tomada do enclave por forças sérvias da Bósnia. Três décadas depois, Srebrenica continua sendo um dos lembretes mais fortes das consequências do ódio, da desumanização e da falha em proteger populações vulneráveis.
O Institute for War & Peace Reporting destaca o trabalho de Velma Šarić, fundadora do Post-Conflict Research Center, que dedicou sua carreira à educação, à memória e à prevenção de violências em massa. Sua trajetória mostra como histórias humanas, arquivos judiciais, jornalismo independente e educação podem se tornar ferramentas de paz.
Em um momento em que conflitos na Ucrânia, no Sudão e em Gaza levantam novas questões sobre proteção de civis e responsabilidade internacional, a memória de Srebrenica lembra que a justiça nunca é automática. Ela exige instituições, tribunais, jornalistas e educadores capazes de preservar a verdade histórica.
Um genocídio que continua como ferida aberta
Srebrenica não é apenas um evento histórico. Para sobreviventes e familiares das vítimas, a memória permanece presente, íntima e dolorosa. As comemorações de 11 de julho, portanto, não servem apenas para recordar um fato do passado. Elas também permitem reconhecer uma dor ainda viva.
Em julho de 1995, o enclave de Srebrenica, declarado zona protegida, foi invadido por forças sérvias da Bósnia. Mais de 8.000 homens e meninos bósnios muçulmanos foram separados, detidos, executados e enterrados em valas comuns. As famílias passaram anos procurando os restos de seus parentes, identificando vítimas e reconstruindo fragmentos de verdade a partir de provas dispersas.
Essa memória continua central porque se opõe ao negacionismo, à manipulação e à banalização. Sem trabalho de memória, crimes em massa podem ser minimizados, relativizados ou usados para fins políticos.
O testemunho de Velma Šarić
Velma Šarić tinha 16 anos quando viu refugiados de Srebrenica chegarem à sua escola, em Kladanj, uma pequena cidade no leste da Bósnia. Ela lembra de sua mãe levando-a para entregar biscoitos e arroz às famílias deslocadas. No ginásio da escola, viu mulheres e crianças devastadas.
Essas cenas a marcaram profundamente. Tornaram-se parte de sua compreensão da guerra, mas também de seu compromisso com a prevenção. Para ela, ver aquele sofrimento de perto fez compreender a importância das histórias humanas.
Essa dimensão é essencial. Os números são necessários para documentar um crime. Mas os relatos individuais permitem entender o que a violência faz às famílias, às comunidades, às crianças e às gerações seguintes.
É essa convicção que atravessa seu trabalho de paz e educação.
Do jornalismo à construção da paz
Šarić começou sua carreira jornalística com o IWPR em 2008. Durante oito anos, cobriu os procedimentos do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia, além dos esforços de justiça ligados aos crimes cometidos durante as guerras dos Bálcãs.
Essa experiência foi decisiva. Permitiu que ela acompanhasse julgamentos complexos, explorasse arquivos, compreendesse a força do testemunho e aprendesse a tornar a justiça internacional acessível ao público.
O jornalismo de guerra e de justiça transicional tem um papel particular. Ele não se limita a relatar audiências. Traduz procedimentos jurídicos difíceis em relatos compreensíveis. Explica provas, responsabilidades, crimes, veredictos e implicações para as sociedades envolvidas.
Em uma região marcada por propaganda, nacionalismo e negacionismo, esse trabalho de explicação é uma forma de defesa da verdade.
O papel histórico do IWPR
O IWPR começou sua cobertura dedicada do Tribunal Penal Internacional para a ex-Iugoslávia em 1996 e continuou por mais de duas décadas. Essa cobertura acompanhou os julgamentos até as condenações finais de altos responsáveis, incluindo o comandante militar sérvio da Bósnia Ratko Mladić.
Esse trabalho teve vários efeitos importantes. Permitiu explicar ao público local e internacional os mecanismos da justiça internacional. Formou jornalistas locais para cobrir procedimentos sensíveis. Também ajudou a preservar um registro histórico preciso.
Em contextos pós-conflito, a informação independente é essencial. Os tribunais estabelecem fatos judiciais, mas esses fatos precisam ser compreendidos pelas sociedades. Sem mediação jornalística, as decisões judiciais podem permanecer distantes do público ou ser distorcidas por atores políticos.
Por isso, a cobertura independente dos julgamentos continua sendo parte integrante da luta contra o negacionismo.
Arquivos judiciais como ferramenta de paz
Para Velma Šarić, o legado judicial e os arquivos do tribunal estão entre as ferramentas mais importantes para a construção da paz e para a elaboração de programas educacionais. Esses arquivos não são apenas documentos jurídicos. Eles contêm testemunhos, provas, veredictos, cronologias e conclusões que permitem compreender o que aconteceu.
Podem ser usados em escolas, universidades, formações de jornalistas, programas de reconciliação e iniciativas de prevenção de atrocidades.
Sua importância é ainda maior porque o negacionismo continua existindo. Nos Bálcãs, como em outras regiões, crimes em massa podem ser reinterpretados, negados ou transformados em narrativas nacionalistas. Os arquivos funcionam então como ponto de ancoragem factual.
Eles lembram que a memória não se apoia apenas na emoção. Também se baseia em fatos estabelecidos, investigações e decisões judiciais.
Educação como prevenção
O trabalho do Post-Conflict Research Center se concentra na paz, na educação e na resolução de conflitos. Uma de suas iniciativas, a Srebrenica Youth School, reúne todos os anos jovens da região e de outros países para aprender com sobreviventes, historiadores e especialistas em justiça transicional.
Esse tipo de programa é essencial porque a memória não se transmite automaticamente. As novas gerações não viveram a guerra, mas herdam seus relatos, suas divisões e, às vezes, seus silêncios.
A educação pode, portanto, reforçar divisões ou superá-las. Tudo depende de como os fatos são ensinados. Um programa baseado em testemunhos, arquivos e análise crítica pode ajudar jovens a compreender os mecanismos do ódio, da propaganda e da violência coletiva.
A prevenção começa muitas vezes nessa capacidade de reconhecer sinais de alerta.
Histórias humanas contra a desumanização
Srebrenica mostra aonde a desumanização pode levar. Antes dos massacres, as vítimas frequentemente são descritas como ameaça, grupo inferior ou inimigo coletivo. Essa lógica facilita a violência, pois retira dos indivíduos sua humanidade.
As histórias humanas fazem o contrário. Devolvem nomes, rostos, famílias, memórias e vozes às vítimas. Impedem que crimes sejam reduzidos a estatísticas abstratas.
Para Šarić, a força do testemunho vem dessa capacidade de ligar a história às pessoas. Quando um sobrevivente conta o que viu, perdeu ou reconstruiu, obriga o ouvinte a encarar a realidade humana do crime.
Por isso, o testemunho continua sendo ferramenta de justiça, mas também de prevenção.
Justiça internacional segue indispensável
Srebrenica demonstra que a justiça exige tempo, instituições e vontade política. As condenações de responsáveis não trouxeram as vítimas de volta. Não apagaram a dor das famílias. Mas estabeleceram responsabilidades e confirmaram fatos.
A justiça internacional costuma ser lenta e imperfeita. Ainda assim, continua indispensável quando os crimes superam a capacidade ou a vontade dos Estados envolvidos.
Ela também envia uma mensagem: líderes, comandantes e executores não devem poder contar com impunidade. Mesmo anos depois dos crimes, arquivos podem ser abertos, provas examinadas e responsabilidades reconhecidas.
Em um mundo onde conflitos atuais multiplicam acusações de crimes contra civis, essa lição segue plenamente atual.
Paralelos com conflitos atuais
O IWPR destaca que os conflitos na Ucrânia, no Sudão e em Gaza levantam novas questões urgentes sobre responsabilidade e proteção de civis. A ligação com Srebrenica não é uma comparação mecânica. É, antes, um lembrete: quando a comunidade internacional hesita, quando civis são expostos e quando a verdade é contestada, as consequências podem ser duradouras.
Na Ucrânia, ataques contra áreas residenciais e infraestrutura civil reacendem debates sobre documentação de crimes de guerra e mecanismos de responsabilidade. No Sudão, violências contra populações civis colocam em questão o acesso humanitário e a justiça. Em Gaza, a proteção de civis continua no centro das preocupações internacionais.
Srebrenica lembra que documentar, investigar e preservar provas durante os conflitos é indispensável para evitar que crimes desapareçam no caos da guerra.
Unidade internacional diante da Ucrânia contrasta com os anos 1990
O contexto atual também evidencia uma diferença importante: a resposta internacional à Ucrânia se caracterizou por unidade e apoio sem precedentes, em contraste com as hesitações observadas durante as guerras da Bósnia há três décadas.
Essa diferença mostra que a memória histórica pode influenciar decisões presentes. Fracassos passados criam obrigações morais e políticas. Instituições internacionais, Estados e organizações de direitos humanos sabem que a inação pode ter custo humano imenso.
Mas essa unidade permanece frágil. Conflitos prolongados testam vontade política, recursos e atenção pública. A memória de Srebrenica lembra que a proteção dos civis não deve depender do cansaço político ou midiático.
O perigo do negacionismo
O negacionismo é um dos maiores obstáculos à reconciliação. Quando um genocídio é negado, as vítimas são feridas uma segunda vez. O negacionismo impede a sociedade de reconhecer os fatos, transmitir a história e construir uma paz duradoura.
Também pode preparar futuras violências. Se crimes passados são justificados ou minimizados, as ideologias que os produziram podem sobreviver.
Por isso, arquivos, julgamentos, testemunhos e jornalismo independente são essenciais. Eles não apenas contam o que aconteceu. Também impedem que os fatos sejam apagados.
A memória de Srebrenica é, portanto, um ato de resistência contra o negacionismo.
A paz exige mais que ausência de guerra
A construção da paz não consiste apenas em silenciar as armas. Exige reconstruir confiança, ensinar os fatos, reconhecer as vítimas, apoiar sobreviventes e criar espaços onde jovens possam aprender sem propaganda.
O trabalho de Šarić e do PCRC segue essa visão. Sua abordagem conecta jornalismo, educação, testemunho, diálogo e justiça transicional.
Esse método é importante porque sociedades pós-conflito não se curam automaticamente com o tempo. Feridas podem ser transmitidas, instrumentalizadas ou reativadas. A paz, portanto, precisa ser trabalhada ativamente.
Srebrenica mostra que a memória não está voltada apenas ao passado. Ela também serve para proteger o futuro.
O que as instituições devem aprender
O primeiro ensinamento é que crimes em massa devem ser documentados imediatamente e com rigor. Provas perdidas podem enfraquecer a justiça por décadas.
O segundo é que tribunais devem receber apoio político e financeiro. Sem instituições capazes de investigar e julgar, a responsabilidade permanece teórica.
O terceiro é que jornalistas locais devem ser formados e protegidos. Eles têm papel crucial na transmissão dos fatos às comunidades diretamente afetadas.
O quarto é que a educação deve integrar testemunhos, arquivos e análise crítica. Sem transmissão, a memória pode se desgastar.
O quinto é que a prevenção deve ser permanente. Sinais de ódio, desumanização e violência organizada precisam ser levados a sério antes que seja tarde demais.
Conclusão
Trinta anos após o genocídio de Srebrenica, a memória continua sendo uma responsabilidade coletiva. Os mais de 8.000 homens e meninos bósnios muçulmanos assassinados em julho de 1995 não devem ser reduzidos a um número ou a uma comemoração anual. Sua história precisa continuar informando políticas de prevenção, sistemas educacionais, jornalismo e justiça internacional.
A trajetória de Velma Šarić mostra como um trauma vivido na adolescência pode se transformar em compromisso de toda uma vida com a paz. Seu trabalho, como o do IWPR e do Post-Conflict Research Center, lembra que histórias humanas, arquivos judiciais e educação são ferramentas essenciais contra o negacionismo e a repetição da violência.
Ponto final
Srebrenica demonstra que a justiça nunca é automática. Ela depende de instituições capazes de investigar, tribunais prontos para julgar, jornalistas determinados a preservar a verdade e educadores capazes de transmitir a memória às futuras gerações. No momento em que civis continuam ameaçados em vários conflitos, o dever de memória também permanece um dever de prevenção.